Tinha quatro anos quando aconteceu o 25 de abril.

Mentiria se dissesse que o vivi intensamente e que imediatamente aspirei o novo ar de liberdade que na altura se respiraria.

Aliás, desses meus tenros anos e graças a dois homónimos que se evidenciaram em tal época – Vasco Gonçalves e Vasco Lourenço (um deles inspirador da trova de intervenção do camarada Vasco e da muralha de aço) – confesso que guardo a ideia que os libertadores eram figuras mais próximas do bicho papão do que de heróis, pois eram usados como argumentos determinantes e coartores da minha periclitante liberdade de não comer a sopa ou de fazer asneiras.

Tal como quanto às minhas nebulosas memórias, também não mentirei se disser que também todos nós hoje temos uma memória seletiva do que se passou há 40 anos atrás: perante o triste e decadente cenário político, económico, social e cultural atual, não resistimos a afirmar que o que hoje se passa é uma desgraça, uma miséria, que estamos abaixo de tudo o que é imaginável. Os políticos são corruptos, a economia não funciona, as instituições são débeis, as pessoas mal preparadas, a polícia não atua, o respeito é nenhum, a Ordem não existe, as virtudes são poucas, o pecado campeia. O trabalho e o esforço não são recompensados. Como era dantes… mesmo sem ter conhecido esse antes, ou tendo-o esquecido o que é pior.

E tudo, claro, graças ao desgraçado do 25 de abril que, à falta de melhor alvo, acusamos de ser o causador de toda a nossa infelicidade atual, a Origem de todos os males.

Por comparação, tudo o que “perdemos” com o 25 de abril, e por a nossa memória ser curta, ganha auras de ter sido bom, saudável, desejável, elogiável …

Pura ingratidão minha, e nossa, para com o 25 de abril.

A pura e simples maledicência (justa ou injusta é o que menos importa ao caso) com que nos é permitido tratar o 25 de abril, é o seu grandioso testemunho do seu enorme e único contributo para o que hoje somos e que nunca seríamos caso ele não tivesse existido.

Não tenhamos dúvidas, se estamos mal, estaríamos muito pior caso ele nunca tivesse existido: É que não teríamos a oportunidade de, pelo menos, livremente desabafar e dizer mal de tudo o que nos vier à cabeça.

E isso, acho eu, já é uma grande coisa.

Não tenhamos dúvidas, para o que somos enquanto pessoas e para o que somos enquanto país, povo, e NAÇÃO, o 25 de abril foi o acontecimento mais importante da vida dos nossos pais, da nossa própria vida e mesmo da vida dos nossos filhos e netos.

Para o bem e para o mal, mesmo que só queiramos ver este lado.

E mesmo que para todos os que nasceram e virão a nascer depois do 25 de abril a existência de uma sociedade ditatorial, censuradora e opressiva seja algo do domínio da ficção científica e das personagens malvadas dos desenhos animados.