Começou a competir nos trofeus e este ano estreou-se no Rali de Portugal. Apesar do acidente no Rali Serras de Fafe, da ausência em Guimarães e mesmo da reduzida experiência num carro de quatro rodas motrizes, Salvador Gonzaga estreou-se no rali de Portugal em grande e conquistou o 3.º lugar da geral, ao volante do seu Mitsubishi Evo VII.

O piloto de Rebordosa tem abrilhantado o campeonato nacional de ralis norte e assume que a próxima época poderá ser determinante na sua carreira.

 

Há quanto tempo é piloto de rali?

Comecei em 2009 com o trofeu Yaris, depois parei. Fiz o Modelstand que é o trofeu Peugeut 206 GTI e fiz dois anos de provas assim. No ano passado só fiz um ou dois ralis e este ano decidi experimentar as quatro rodas motrizes. Já ando nisto há cerca de quatro anos, cheguei a participar em competições de motos quando era mais novo, mas isso já são outros percursos.

Esta sempre foi uma grande paixão para si?

Os ralis foram sempre uma das minhas grandes paixões. Desde sempre fui apaixonado por carros e talvez por ir com os meus primos e amigos ver os grupos b quando era o Raly de Portugal ficou-me sempre aquela paixão. Quando tive hipótese de fazer qualquer coisa nos ralys fiz, sempre numa de brincar sem grandes investimentos. Basicamente é uma paixão que tento matar um bocadinho tarde, mas tenho feito o meu papel e bem penso eu.

 

Paulo Lopes (navegador) e Salvador Gonzaga (piloto) no rali de Ponte de Lima

Paulo Lopes (navegador) e Salvador Gonzaga (piloto) no rali de Ponte de Lima

 Mas corre apenas por prazer e não a pensar nas vitórias?

Só corro porque arranjo uns patrocínios que me cobrem mais ou menos as despesas senão não tinha condições para correr porque é um desporto muito caro. Embora tenha sempre de gastar algum dinheiro meu estamos a falar de uma pequena parte em relação ao que é necessário para participar em ralys. Devo gastar cerca de 3 a 4 mil euros ao ano num projeto que custa cerca de 35 mil.

Fez este ano a sua estreia no Rali de Portugal e da melhor forma ao conquistar o 3.º lugar entre os pilotos que pontuam para o campeonato de Ralis do Norte. Satisfeito com esta conquista?

No Rali de Portugal tentei atacar logo no início do troço e quando garanti mais ou menos o terceiro lugar andei devagar honestamente. Foi manter o terceiro lugar que para mim era muito bom. Nos últimos dois troços podia tirar à vontade dois segundos por quilómetro, mas não quis arriscar nada. Ficamos satisfeitos com esta conquista, mas não era o mais importante. Aliás nem foi das provas que me deu mais gozo. No rali de Ponte de Lima fiquei em 11.º lugar e diverti-me muito mais do que no Rali de Portugal porque a concorrência era mais apertada.

Durante a prova tive uma assistência que demorou mais 9 minutos do que devia, fui penalizado em 90 segundos e passei para último. Mas vim sempre a subir na classificação até chegar ao 11.º lugar. E isso é que é fabuloso. Andei no limite e o rali é isso mesmo ver até onde pudemos ir.

 “Qualquer piloto que queira ser campeão tem que começar nos trofeus”

 Que momento destaca do seu percurso?

O Rali de Ponte de Lima foi talvez a pior classificação, mas foi a que mais me marcou e a que mais gostei. No rali de Portugal, e apesar de ter conseguido ficar em terceiro lugar, andei metade da prova a passear. Só usufruo das provas quando ando no limite e isso acontece muito com outros pilotos de rali.

Mas a parte do Modelstand foi talvez a mais importante apesar de nunca ter conseguido grandes resultados. Às vezes um quinto lugar num trofeu Modelstand era espetacular. E estamos a falar de 3 segundos para o primeiro. Tínhamos de andar sempre com a faca nos dentes e aí aprendíamos realmente a tirar partido do carro ao máximo. Nestes trofeus 90 por cento conta a experiência e 10 por cento depende do carro. No campeonato as coisas são diferentes.

 Mas acha que a sua experiência no Modelstand foi essencial para conseguir melhores resultados no campeonato?

Qualquer piloto que queira ser campeão tem que começar nos trofeus. Nós temos dois novos valores nos ralis que vêm dos trofeus: o Diogo Delgado, que agora está a fazer o trofeu Suzuki, em Espanha, e o Peugeot, em França, e o Gil Antunes. Onde eles correrem ganham e isso vem muito da escola dos trofeus que lhes ensina a levar o carro ao limite para ganhar.

 Quais foram as etapas mais difíceis até agora?

Posso dizer que no primeiro rali da minha classe de promoção norte, em Fafe, estávamos no segundo ou terceiro lugar quando capotamos. Tivemos um azar numa travagem, mandamos o carro para fora de estrada e capotamos. No rali de Guimarães não pude participar por motivos profissionais o que nos fez ficar fora das plantas do campeonato. Fomos para o rali de Portugal, sem grandes intenções, mas correu bem e o terceiro lugar já nos fez voltar outra vez às contas do rali e a ajustar os nossos planos.

Como analisa o campeonato nacional?

Acho que a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK) tem trabalhado mal a parte dos ralis e é isso que faz com que neste momento não tenhamos grandes valores a competir. Os únicos dois são o Diogo e o Gil, mais até o Diogo. Os outros são bons para provas nacionais, mas depois chegam lá fora e não conseguem nada. O meu primo João Barros também é um bom valor, é uma pessoa que vem do asfalto e da velocidade, falta-lhe ainda algum conhecimento dos ralis, mas é um piloto muito rápido. Acho que tem capacidade para ir à Europa competir.

 

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 Quais são as ambições para esta temporada?

Não tenho nenhuma ambição especial, quero apenas aprender. Este será um ano de aprendizagem e se no próximo conseguir alguns patrocínios para ter um carro melhor aí sim tentar lutar pelos primeiros. Não na classe de promoções norte porque para o ano só faço o Open. Esta época tinha um patrocínio mais ou menos apalavrado, mas quando a FPAK decidiu não fazer o Open e dividir a prova nacional em três, promoções norte centro e sul, retiraram o patrocínio.

Penso que a FPAK vai voltar atrás com a decisão. Se isso acontecer tenho um projeto e avanço com ele se não acontecer deixo de fazer.

 “Fomos para o rali de Portugal, sem grandes intenções, mas correu bem”

 Quem pode ser uma grande surpresa neste campeonato?

Temos vários pilotos que podem surpreender. O João Barros é uma agradável surpresa. Em termos de experiência o Ricardo Moura é melhor, é um rato velho, mas que também já não tem muito por onde evoluir. Temos bons valores neste campeonato e que podem dar cartas. Para mim o Pedro Meireles foi uma agradável surpresa porque pensava que era um piloto lento, mas vi que não. Foi um dos pilotos que mais evoluiu no campeonato.

Faz alguma preparação especial para as provas?

Comecei a fazer este ano. A Ana Viriato tem sido a minha treinadora pessoal e tem puxado muito por mim. Até agora não tinha nenhuma preparação, mas agora faço ginásio com uma preparação especial. E já tenho notado a diferença.

A relação com o navegador é determinante para alcançar bons resultados?

O nosso copiloto é como a nossa consciência. Eu e o Paulo começamos do zero. O Paulo foi-me apresentado por um treinador e a nossa relação é muito boa. Temos uma longa convivência e já sabemos até onde podemos ir um com o outro.

Se olharmos para os grandes pilotos de ralis têm sempre os mesmos navegadores porque a relação que existe entre piloto e navegador é fundamental. E uma boa relação só se constrói com o tempo.

Qual o fator que pesa mais: um bom carro ou muita experiência?

Ter um bom carro é importante e determinante em algumas fases das provas, mas a experiência é fundamental.

Gostava de competir em provas internacionais?

Gostava claro. Gostava um dia de conduzir um carro a sério, um carro bem preparado como os dos pilotos que andam agora nos cinco primeiros no campeonato. É óbvio que gostava de participar em provas internacionais, mas não tenho a prepotência de me comparar a um Kubica já para nem falar do Ogier.

Sou mais humilde e preferia ter um bom carro para competir em Portugal. Mas gostava de fazer o rali dos mil lagos, na Finlândia. Já fui ver duas vezes e imaginei sempre como seria estar a competir num rali como aqueles.

 “Se avançarmos para o Open é para lutar pela vitória”

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Quem são as suas referências no mundo dos ralis?

A primeira é o Sébastien Loebe porque é um piloto frio em prova. E depois tenho um outro que é um louco, o Kubica. São dois pilotos completamente diferentes, mas que têm duas características fundamentais num piloto de topo. Acho que o Sébastien Loebe teve sempre essa dose de loucura, mas foi suficientemente inteligente para a saber controlar. O Kubica tem a mesma loucura, mas não consegue controlar.

Acha que a próxima época poderá sempre marcante para a sua carreira?

Espero que sim porque tenho duas promessas de patrocinadores. Se avançarmos para o Open é para lutar pela vitória. Os dois patrocinadores que gostaram de me ver nas provas este ano e que me garantem a participação no próximo ano. Esperemos que tudo corra bem.