CHTS prepara acompanhamento para crianças até aos 4 anos

Conferência. “Há casais que têm um nome escolhido para o bebé e que, quando se confrontam com a probabilidade de ele morrer, trocam e arranjam um nome de circunstância, para que, caso o bebé morra, não morra também o filho que eles idealizaram”, contou, Eduardo Sá, psicólogo na palestra, “Famílias Prematuras”, organizada pela Unidade de Neonatologia.

O presidente do Conselho de Administração do CHTS deu “adjudicação imediata” para o avanço de um projeto de acompanhamento das crianças até aos 4 anos, com consultas multidisciplinares, envolvendo pediatras, psicólogos e outros profissionais. Carlos Alberto respondia assim ao desafio deixado minutos antes pelo psicólogo Eduardo Sá na palestra sobre “Famílias Prematuras”, que no dia 18 de novembro decorreu no Hospital Padre Américo, em Penafiel.

“Devia ser obrigatório que todos os bebés fossem apoiados até aos 4 anos”, afirmou o reputado autor, para quem “é urgente dar mais importância à vida emocional dos bebés”. Carlos Alberto endereçou o tema para as equipas profissionais, para que definam o modelo de funcionamento e promovam a articulação com os Cuidados de Saúde Primários, para implementação no futuro próximo.

Convidado para falar sobre o impacto que um bebé prematuro tem na família, o autor de “Livro de Reclamações das Crianças” ou “Más Maneiras de Sermos Bons Pais” defendeu que “não estamos preparados para ser mãe ou para ser pai, muito menos para sermos pais de um prematuro”. E essa experiência, diz, “é devastadora”, afetando a mãe, o pai e toda a família.

A culpa sentida pela mãe que “no primeiro momento em que soube que estava grávida, não ficou muito feliz com essa perspetiva” ou do pai, “que achou que, em termos financeiros, não era a melhor altura”; o bebé que não corresponde ao que os pais idealizaram; o medo de que, a qualquer momento aquela criança possa morrer; o filho mais velho que fica “abandonado” ou a falta de apoio das entidades patronais aos pais nesta situação, todas estas situações contribuem para aquilo a que chamou de “catástrofe” na vida destes pais.

“Há casais que têm um nome escolhido para o bebé e que, quando se confrontam com a probabilidade de ele morrer, trocam e arranjam um nome de circunstância, para que, caso o bebé morra, não morra também o filho que eles idealizaram”, contou, para falar da importância da dimensão psicológica na abordagem que é feita pelos profissionais de saúde.

Do ponto de vista psicológico, o bebé nasce aos 4 meses

E se, ultrapassados os obstáculos iniciais, Eduardo Sá não vê um prematuro como uma pessoa diferente e nega que a prematuridade seja um atestado de défice cognitivo – “A criança tem muito tempo para colocar as peças do puzzle todas no sítio” –, importa-lhe o desenvolvimento psicológico do feto. “Se, do ponto de vista obstétrico, o bebé deve nascer ao fim de nove meses, do ponto de vista psicológico, ele nasce aos quatro”, disse, lembrando que “tudo o que se passa na vida mental de uma grávida passa para o bebé” e que “é muito diferente, o bebé passar os nove meses dentro da mãe ou dentro de uma incubadora”. Por esta razão, o professor defende a importância de” humanizar as incubadoras”.

O prematuro, os irmãos e o casal

“Se um bebé espatifa a vida de um casal, um prematuro espatifa muito mais”, diz Eduardo Sá, lembrando que o impacto que um bebé prematuro pode causar nas dinâmicas do casal é muito diferente quer ser trate de uma primeira ou segunda gravidez. E também esta dimensão deve ser tida em conta, quer pelos pais, quer pelos profissionais de saúde que os acompanham.

Quanto aos irmãos mais velhos, é “normal que fiquem assustados, que tenham ciúmes, que fiquem um pouco deprimidos no primeiro ano de vida do bebé”, uma realidade comum às famílias que têm bebés de termo, mas que se agudiza no caso dos prematuros. “A mãe está em estado de alerta e quando o irmão tenta tocar no bebé, ela vai ‘atirar-se’ para o proteger, vai estar sempre alerta para que ele não se “parta” e isso vai condicionar a interação entre os irmãos”.

De resto, a forma de perceber que o irmão mais velho também já ultrapassou os receios em relação ao bebé é simples: “Quando o mais velho já se sente à vontade para ser mauzinho com o irmão, como todos os irmãos fazem, isso significa que já está tudo bem”, explica.

Com esta palestra, o CHTS encerrou o evento “Ser Prematuro no CHTS”, organizada pela Unidade de Neonatologia, no âmbito do projeto Crescer com Afetos, e que decorreu de 15 a 18 de novembro, como forma de assinalar o Dia da Prematuridade e que contou ainda com uma exposição e um almoço com as famílias de bebés prematuros.