Não sendo economista ou especialista em finanças, interessa-me contudo compreender as razões fundamentais da evolução económica e social dos países, nomeadamente dos da União Europeia. E julgo que, embora exigindo um prolongado esforço interpretativo e persistindo dúvidas sobre essa compreensão, a realidade pode e deve ser caracterizada com alguma precisão.

Alguns dizem com mediano simplicismo: a riqueza de um país expressa-se pela capacidade de produzir, pela organização do trabalho, pela boa gestão pública e privada das unidades de produção e serviços. Veja-se lá o caso da Alemanha. O que distinguiria os gregos dos alemães seria, a crer nesse raciocínio simplista, uma diferente atitude perante a produção de riqueza. E abundam logo os exemplos gregos de uma permissividade social, de corrupção política, de ineficácia económica (os casos das piscinas, dos atestados médicos de incapacidade, de pensões enormes e subsídios sociais indevidos, de corrupção no acesso a cuidados de saúde e outros mil exemplos).

Mas há algo a contrapor. Os gregos trabalham mais horas por ano do que qualquer europeu (e nomeadamente os alemães). E o crescimento da produtividade do trabalho aumentou mais de 25% desde que a Grécia aderiu à Zona Euro em 1999 (no caso da Alemanha, cerca de 10%).

Alguns continuarão a dizer, com verdade: os salários gregos cresceram muito mais do que os salários alemães no mesmo período (29% versus 65%). Obviamente a competitividade actual da economia grega ressente-se dessa desigualdade, que a meu ver é contrária às intenções de coesão social apregoada no espaço económico europeu.

Mas aqui devemos dizer que na Alemanha houve, desde há uma década, um sistemático abandono de direitos sociais, nomeadamente dos desempregados, agravando-se muito significativamente o trabalho temporário, que abrange cerca de 10% do universo dos contratos de trabalho. Tudo isto resulta de uma estranha coligação de interesses, quer política (CDU de Merkel e SPD) quer sindical (sindicatos e entidades patronais).

A economia, o emprego e a riqueza alemãs crescem assim com uma estratégia própria de desvalorização do trabalho, redução de direitos sociais e expansão externa. Em simetria, acentuam-se as despesas dos países restantes. A Alemanha recusa o aumento do consumo interno, do investimento interno e das importações, como lhes foi proposto pelos seus parceiros comerciais, nomeadamente os Estados Unidos.

O Euro aparece como instrumento egoísta de afirmação da maior economia da Europa. A Alemanha beneficiou generosamente com a criação da União Europeia e nomeadamente da Zona Euro. Mas, insaciável, quer o póquer final.

Eis os números: a Alemanha contribui só com 27,14% para o Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira (apoio a países da União Europeia com dificuldades), só com 17,99% do capital do BCE, e só com 13% do capital do FMI. A Alemanha obtém nos mercados financeiros dinheiro a uma taxa de juro que ronda os 1% e empresta a Portugal, por exemplo, através do MEEF a 2,5%. Percebem-se os lucros envolvidos. Empresta o dinheiro, e à custa dos enormes sacrifícios dos povos dos países credores, embolsa milhões de euros de lucro. Desde a entrada da zona Euro, a Alemanha tem um gigantesco saldo positivo excedente da Balança de Transacções correntes, de cerca de 2.030.800 milhões de euros.

O bem-estar alemão é feito sobretudo de uma política de conquista de mercados, beneficiando da subserviência dos burocratas de Bruxelas e dos opinion makers de serviço. O Euro foi espoliado pelos alemães como instrumento de política económica e financeira. Mas a arrogância e a unilateralidade vão conduzir a péssimos resultados.