Este ano não há silly season

“Como é possível que um banco que até bem pouco tempo dava sinais de saúde (até em contraciclo com a própria economia do país), entrar tão rapidamente numa espiral tão negativa?”

 

Todos os anos, por esta altura, as notícias escasseiam porque, como é normal, a maior parte dos agentes económicos, mas principalmente os políticos entram de férias e, consequentemente, o país atravessa um mês de relativa calmaria mediática (a chamada silly season).

Infelizmente, este agosto de 2014 fugirá à regra. Seja pelos submarinos e as respetivas contrapartidas, seja pela novela em que está transformada a disputa pela liderança do PS, seja pela entrada da Guiné Equatorial na CPLP, ou mesmo pela crise que o BES atravessa, neste mês não faltará matéria nas redações.

Começando pela entrada da Guiné Equatorial na Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa, parece-me algo estranho que um país onde a população fala espanhol, mas onde o francês foi declarado língua oficial, venha agora fazer parte de uma comunidade de países cujo português é a sua principal referência comum. O facto do presidente deste pequeno país africano ser um ditador e haver queixas de atropelos aos direitos humanos, apesar de grave, não me parece que seja impedimento para fazer parte da CPLP pois, como todos sabemos, este não é um comportamento exclusivo da Guiné Equatorial.

Relativamente aos submarinos, parece-me que se está a tentar esclarecer algo que dificilmente poderá ser esclarecido convenientemente, pois já todos percebemos que houve algo que não correu bem na negociação e que já se perdeu muito tempo a investigar o que se calhar está à vista de todos. Segundo se sabe, na Alemanha a justiça foi muito lesta a resolver esta questão, já existe gente presa e até já fizeram um documentário que passou em horário nobre na televisão pública. Por cá, fazem-se inquéritos e mais inquéritos, criam-se comissões atrás de comissões, para se chegar ao fim e apresentarem uma mão vazia e outra cheia de nada.

Quanto à luta de galos em que está transformada a disputa da liderança do PS, já não há muito mais a dizer. Vai ser mais do mesmo até às tão faladas primárias de setembro. Seguro ataca Costa, Costa ataca Seguro. Um promete mundos e fundos, o outro contra-ataca, dizendo que o opositor está a ser irrealista, mas também não se poupa nas promessas. Enfim, só esperemos que não destruam o partido, pois apesar de não ser o meu, acho que a democracia portuguesa precisa de um PS no mínimo coerente.

Mas, mais grave do que tudo o que disse atrás é sem dúvida o que se está a passar com o Banco Espírito Santo. Uma instituição que até há bem pouco tempo gozava de credibilidade quase ilimitada, tendo sido mesmo considerada pelos consumidores como a marca de maior confiança em 2013, está agora num beco sem saída. Mas o que mais me surpreende é mesmo a volatilidade deste tipo de opiniões. Como é possível que um banco que até bem pouco tempo dava sinais de saúde (até em contraciclo com a própria economia do país), entrar tão rapidamente numa espiral tão negativa?

É simples. Pelo que consegui apurar, trata-se de uma sucessão de erros e de más tomadas de decisão, que em última instância redundaram num buraco 3,1 mil milhões de euros (até ver!). E mais surpreendente de tudo, grande parte destas operações foram feitas com a Troika cá em Portugal. Não se compreende como é que ninguém agiu mais cedo.

Mas enfim, como disse no início, este mês de agosto será quente por estas razões, e só me resta desejar umas boas férias a quem me lê e esperar que tudo se resolva e que, em setembro, tudo esteja a correr melhor.

Boas férias