SOBRE FUTEBOL

Por Juvenal Brandão, Treinador de Futebol UEFA Pro (Grau IV), Licenciado em Gestão de Desporto

ESTRUTURA. Nome feminino que tanta importância tem no futebol. Mas vamos por partes. O que é a estrutura? Segundo o dicionário da língua portuguesa: modo como as diferentes partes de um todo estão dispostas; construção e disposição (de um edifício); o que permite que uma construção se sustente e se mantenha sólida; o que serve de sustento ou de apoio; ou objeto que se construiu (ex.: o edifício é uma estrutura sólida); entre outros.

E no futebol? Para mim, quando falamos de estrutura, falamos de recursos humanos e na forma como são organizados, de maneira a ser o apoio, a base, o suporte do clube. E quanto melhor for a estrutura mais sucesso terá o clube.

Recentemente, Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, a propósito da pandemia que nos assola e das decisões a tomar no futebol, disse:

“Escolher bem diretores desportivos, treinadores, jogadores. Ultrapassada esta conjuntura extraordinária, teremos de evitar as trocas constantes de recursos humanos ao primeiro sinal de que as coisas não correm conforme o planeado. A persistência, a resiliência e o trabalho coletivo dão resultados. A FPF, recordo, desde o início de funções da atual direção, há oito anos, só trocou de selecionador nacional uma vez. O primeiro título internacional em todos os escalões e vertentes só surgiu depois de jogarmos cinco finais. O primeiro título europeu só foi conquistado após 102 anos de história federativa.”

Em nota de rodapé, a FPF renovou esta semana com o selecionador Fernando Santos até 2024, ele que está no cargo desde Setembro de 2014. Se cumprir o contrato será aquele com mais anos no cargo em 100 anos de história da seleção (a par de Cândido de Oliveira, 1935-1945).

Se há coisa que, na minha opinião, a FPF tem feito desde que Fernando Gomes assumiu a presidência é apostar em recursos humanos competentes. E apostar sistematicamente. Nas mais diversas áreas – do treino, da saúde, da formação, da gestão. Com resultados a todos os níveis à vista – financeiros e desportivos, à cabeça. A Federação tem um quadro de recursos humanos muito vasto – dá-lhe tempo e liberdade para trabalhar, para errar, para melhorar, para evoluir, para fazerem um trabalho elogiado nos quatro cantos do Mundo. Os recursos humanos não são vistos como despesa – têm sido vistos como investimento e rendimento. A FPF olha para os seus técnicos como alguém que vai valorizar o seu produto. E têm-no feito de forma meritória.

E durante vários anos também já ouvimos dizer que era a estrutura de um clube grande que ganhava campeonatos. Fosse quem fosse o treinador, e fossem quem fossem os jogadores, os títulos eram conquistados. E os adeptos atribuíam, invariavelmente, maior mérito à estrutura.

Os clubes, de norte a sul, dos profissionais aos amadores, infelizmente, continuam a não investir na estrutura – que lhes torne o clube melhor, os deixe mais perto do sucesso, que garanta retorno do investimento.

Discordo de quem argumenta que os clubes sem recursos financeiros não podem “gastar” dinheiro na estrutura porque ele não esbanja. No entanto, eu acho que são acima de tudo esses clubes que têm de mudar a metodologia e investir na estrutura – se o dinheiro é pouco há que investi-lo bem. Porque havendo menos hipóteses de contratar o “treinador ideal” ou os jogadores que seriam as primeiras opções e que são perdidos para os adversários mais poderosos, torna-se essencial ter uma estrutura capaz de fazer a diferença, de trabalhar em antecipação, de oferecer aquilo que todos querem: condições de trabalho que permitam que o trabalho seja menos difícil de desenvolver e que seja menos difícil ultrapassar as adversidades. Ter um contexto favorável, preparado ao longo do tempo pela estrutura, fará atrair alvos que em condições normais se podiam perder. E isso consegue-se com um trabalho de equipa do diretor geral, do diretor desportivo, do secretário técnico, do chefe de scouting, dos scouts, dos treinadores da casa, do nutricionista e do psicólogo, por exemplo – são os alicerces do “edifício do futebol” que vão permitir que treinador e jogadores, com eles, estejam muito mais próximos do sucesso, possibilitando um trabalho a médio/longo prazo, ao contrário do que acontece atualmente, em que os resultados imediatos ditam sistemáticas mudanças nos clubes e, por conseguinte, despesas e mais despesas.

Eu acredito cegamente nisto. E, parafraseando Fernando Gomes, é apenas “uma forma de olhar.”