Opinião de Juvenal Brandão, Treinador de Futebol UEFA Pro (Grau IV), Licenciado em Gestão de Desporto

SOBRE FUTEBOL

A pandemia que vivemos levou a Federação Portuguesa de Futebol a cancelar os campeonatos de futebol jovem, sob a sua tutela, não havendo campeões, nem lugar a subidas e a descidas de divisão. Esta época é como se não tivesse existido e a próxima será com as mesmas equipas.

Mas nem todas as Associações de Futebol distrital seguiram o exemplo da FPF. A do Porto, por exemplo, resolveu aplicar apenas subidas de divisão (da 2ª divisão para a 1ª, já que da 1ª para o Nacional é da responsabilidade da FPF e isso não vai acontecer) e não despromover nenhuma equipa.

Consequências disto, não pararam nas redes sociais queixas e lamentações de treinadores e jogadores, pelas decisões tomadas pelas entidades que gerem o futebol de formação em Portugal.

Foram vários os intervenientes a queixar-se de “uma época deitado ao lixo”, de “precipitação” e até de “insensibilidade de quem toma estas decisões”, apelando a que a FPF devia “ter esperado mais tempo para ser possível jogar até ao fim”.

Que os mais jovens tenham este tipo de comentários e desabafos, ainda se dá um desconto, mas que os mais velhos – essencialmente treinadores – o façam, já é mais incompreensível. Aliás, um dos papéis dos treinadores no futebol de formação, no meu entender, devia ser educar os jogadores para serem ponderados publicamente. E neste caso, mais importante que isso, ensinar aos jogadores que os resultados desportivos são a consequência do processo – aquilo que é a essência – desenvolvimento e evolução para que possam ser melhores atletas, melhores desportistas, melhores futebolistas e (a cereja no topo do bolo), serem profissionais de futebol ou, pelo menos, continuarem o futebol após os 18 anos.

Por isso, nunca uma época desportiva é deitada fora se não sobem de divisão ou se descem de divisão (porque aliás, isso acontece todos os anos), mas sim, se não evoluíram na modalidade. E por isso, os jogadores que são juniores de 2º ano que “terminam” a sua formação, não podem estar revoltados e chateados por “lhes terem deitado fora uma época e a sua formação”, mas sim contentes ou não, consigo e com os seus treinadores (e com os seus clubes) por terem conseguido, em conjunto, atingirem o patamar de ficarem nas equipas séniores dos seus clubes (ou de outros) – esse sim o verdadeiro propósito do futebol de formação.

Mas atenção: que não se desvirtuem estas minhas palavras. Não estou a dizer que os resultados desportivos e a competição não são importantes. Nada disso. São importantes, mas não o mais importante. A medida extrema de finalizar os campeonatos no meio desta pandemia, podia ter mostrado uma outra mentalidade de quem está na formação. O que revela que estamos longe daquilo que podia ser aprendido ao longo de mais de uma década no futebol jovem.

Deveria servir isto também para uma reflexão profunda de todos, mas, essencialmente, dos treinadores e dos clubes, que devem entender que, no futebol de formação, há que ter técnicos com sensibilidade, gosto e competência para o ensino (não só de futebol, mas, primordialmente) dos jovens.

Podia também este momento ser o oportuno para os clubes, de uma vez por todas, seguirem as indicações das entidades especialistas e acabarem com os resultados e classificações até aos infantis, como alguns já o fazem.