SOBRE FUTEBOL

Por Juvenal Brandão, Treinador de Futebol UEFA Pro (Grau IV), Licenciado em Gestão de Desporto

Depois de na edição anterior me ter debruçado sobre o impacto do novo coronavírus no futebol, não estava interessado em voltar ao tema. Até porque, eu, e se calhar a maioria, estávamos longe de pensar que o impacto fosse tão forte ao ponto de… deixar tudo em suspenso, não só o futebol, mas a vida da maioria dos portugueses, e dos europeus.

No entanto, é incontornável fazer o ponto da situação: as competições em todo o mundo pararam. O Campeonato da Europa já foi adiado, os Jogos Olímpicos também. A final da Liga dos Campeões e Liga Europa foram remarcadas e neste momento espera-se para ver como serão jogados os jogos em falta. Por cá, é a mesma coisa. Como serão jogadas as jornadas em falta? Na 1ª Liga, na 2ª, no Campeonato de Portugal, nos campeonatos distritais e até em todo o futebol de formação… Recomeçam-se as competições? Quando? Sem adeptos? Com adeptos? Com quantos? Dão-se por terminadas? Muitas questões que tenho a certeza que neste momento ninguém sabe responder.

Incrível é vermos a equipa alemã do Wolfsburgo ter retomado os treinos (dizem eles que com extremas medidas de proteção) e os também alemães do Leipzig e Hoffenheim, assim como os italianos do Nápoles, terem anunciado que vão regressar entre esta e a próxima semana. Não haverá quem ponha mão nisto? Perante tamanha tragédia não terão o direito, jogadores e treinadores, de não se apresentarem aos treinos colectivos?

Espero que por cá nenhum iluminado demonstre tanta falta de respeito e que se seja cauteloso no retomar dos treinos e das competições. Não tenho informações nenhumas, nem sou especialista em saúde, mas pela evolução desta pandemia, como é que alguém pode achar que antes de Junho poderá haver futebol? E se houver a partir daí, será que Junho e Julho chegarão para terminar campeonatos, Agosto ser o mês de férias (sim, porque isto não são férias), os treinos retomarem em Setembro e o primeiro jogo oficial no início de Outubro? Será assim? Estamos todos curiosos, mas que não será só esta época afectada, parece que não. A próxima será de certeza. Acima de tudo, será preciso uma posição concertada de clubes, treinadores e jogadores.

Veio, entretanto, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, dizer que este seria o momento de reflexão e de se ponderar ter menos competições e menos jogos para proteger os jogadores. Totalmente de acordo, no entanto, estranho estas declarações, numa altura em que tanto se fala de Ligas Europeias. Não será isto um apelo aos clubes todo-poderosos para se formar essa tão desejada competição? Mas, por cá, via margem para a 1ª Liga ser a 16 clubes e se acabar com a Taça da Liga, que não dando acesso a uma prova europeia, não me parece ser útil. Mas isto vai mexer em toda a estrutura do futebol português e, poderá ser por aqui, quem sabe, porque não podemos perder espaço para jovens jogadores, treinadores e árbitros, criada novamente a 3ª Divisão Nacional.

Tudo isto vem ao encontro do que defendo há muito: é preciso que quem tem poderes no futebol se comece a fazer ouvir e a marcar posição. Jogadores e treinadores, junto com os clubes, devem mostrar a sua força para que as decisões não sejam apenas de meia dúzia, (nem) de quem está dentro dos gabinetes. O futebol tornou-se claramente um negócio e poderá sê-lo, mas primeiro tem de ser um desporto apaixonante. Não pode ser em primeiro lugar um negócio, porque a paixão começa-se a perder – por todos, adeptos e praticantes.

Este tempo de isolamento poderia servir para quem dirige reflectir sobre os erros do passado e definir, agora sem a pressão dos resultados e do dia-a-dia, que é aquilo que normalmente tira discernimento aos dirigentes, projectos e estratégias para os seus clubes. Não estou necessariamente a referir-me à contratação e dispensa de jogadores e treinadores para 2020/2021, mas sim aos alicerces que vão suportar o bom trabalho (no próximo ano e nos seguintes): perceber o que foi mal feito, definir o caminho a seguir, e agilizar tarefas importantíssimas como tratar dos relvados e espaços de apoio, garantir toda a logística para o trabalho fluir, definir orçamentos com cabeça e exequíveis, baseados em receitas concretas (que na próxima época serão certamente mais reduzidas), para cumprirem os seus compromissos, organizar o departamento médico, conversar entre clubes sobre os quadros competitivos e tantas mais coisas que por estes dias podem ser bem delineadas.

Para um futebol melhor. Um futebol respeitador.