SOBRE FUTEBOL

Por Juvenal Brandão, Treinador de Futebol UEFA Pro (Grau IV), Licenciado em Gestão de Desporto

Começa a sentir-se o impacto da pandemia no futebol português. Recordemos: a Liga gere o futebol profissional (1ª e 2ª Ligas); a Federação Portuguesa de Futebol gere o Campeonato de Portugal; e as Associações Distritais gerem os respectivos campeonatos distritais.

A Liga decidiu que a 1ª Liga vai retomar-se no último fim-de-semana de Maio (as equipas entretanto voltaram aos treinos) e que vai haver lugar a descidas de divisão; decidiu, por indicação do Governo, que por falta de condições, a 2ª Liga não será retomada e os dois primeiros (Nacional e Farense) sobem e os dois últimos (Cova da Piedade e Casa Pia) descem. A FPF também cancelou o campeonato e indicou duas equipas para subir de divisão (Vizela e Arouca) mas não despromoveu nenhuma, dizendo que não há lugar a subidas dos Distritais. Já antes, tinha cancelado os campeonatos nacionais de futebol jovem e de futsal, da sua tutela, não havendo campeões, nem lugar a subidas e descidas.

As decisões começam a ser conhecidas, cada organismo define as suas regras, os seus “timings”, os clubes sentem-se confusos, injustiçados, não têm explicações e começam a ameaçar recorrer para os Tribunais. Não será este o futebol que devíamos querer. O lógico seria, bem cedo, que a Liga, a FPF e todas as Associações Distritais se reunissem e emitissem um comunicado para tranquilizar as hostes e passar uma imagem de uniformidade e coerência nas decisões: “Meus senhores mantenham-se calmos, vamos aguardar indicações das Entidades Sanitárias e assim que possível daremos informações a uma só voz”. Simples.

Depois das decisões do Governo, em comunicado conjunto diziam: “Com as indicações recebidas, resolvemos:

– jogar ou não jogar;

– haver alargamento, reformulações nos campeonatos ou manter tudo na mesma;

– promover os primeiros classificados ou não haver lugar a promoções;

– despromover os últimos classificados ou não haver lugar a despromoções;

– em 2020/2021 a 1ª Liga será constituída por estas equipas, a 2ª Liga por estas, o CdP por estas, etc.”.

Ponto. Parece-me simples. Mas não foi isso que foi feito. E se as entidades viessem a público justificar, seria, provavelmente, mais fácil de entender.

Tenho visto presidentes, diretores desportivos, treinadores e jogadores a falarem sobre estas decisões. Na maior parte dos casos, olham para o imediato e para o próprio umbigo. Quem vai jogar diz que não há condições para jogar; quem não vai jogar diz que quer jogar. Os que hoje querem ser beneficiados na secretaria, vão ser prejudicados amanhã.

Esta é uma oportunidade. Há tempo para pensar e para executar. Para serem tomadas medidas estruturais.

Eu acho que não há condições para o futebol retomar tão cedo. Mas aceito que quem domina a matéria (Governo e Liga) tenha certezas que a 1ª Liga pode retomar em segurança. Não sendo possível jogar mais, não me parece sensato que se faça um frenesim a dizer que se quer jogar, que é injusto – é incendiar ainda mais os ânimos. Já se sabe que é injusto, seja qual for a decisão. É uma situação excepcional.  Nunca antes vivida.

Mas não sendo possível jogar não acho que a época deva ser dada como anulada, como se não contasse para nada. Acho que devem prevalecer as classificações na data da paragem e tomar medidas para que se possa “beneficiar” o maior número possível de equipas. E o que quero dizer? Que não deviam haver descidas de divisão e que deviam subir o maior número possível de equipas. A 1ª Liga seria alargada a 20 equipas, a 2ª Liga alargada a 20 ou 22 equipas (ou até experimentava uma proposta de alguns clubes: duas zonas de 14 equipas cada, incluindo 6 equipas B), o CDP acolhia pelos menos os 20 campeões distritais e se possível ainda mais uns quantos para fazer número certo de participantes. Seria um ano de transição para no seguinte colocar nos formatos ideais – e para mim, já o defendi aqui anteriormente, tem de voltar a 3ª Divisão, ou seja, haver 4 divisões nacionais em Portugal. Não o faria nesta época porque essa divisão iria prejudicar clubes que não estavam a contar com essa “despromoção”. Mas não é só quadros competitivos que temos de mudar:  os campeonatos nacionais têm de ser alvo de maior fiscalização – quer nas regras de admissão, quer no controlo durante a época (orçamentos, contratos obrigatórios, etc.); a questão do número de equipas a subir e a descer em cada campeonato; a criação de ranking das Associações distritais; entre outros.

Posto isto, receio que fique tudo na mesma – ou pior! E, se assim for, desperdiça-se uma oportunidade de ouro para se reinventar o futebol português. Ainda se vai a tempo de reverter algumas decisões e escolher o caminho certo. Eu acredito.

Duas notas finais.

Uma para reflexão futura: equacionar a coexistência da Liga e da FPF; perceber se as decisões da Liga não deviam ser apenas da sua Direção; reflectir sobre se os Clubes deviam fazer parte da Direcção da Liga; analisar se faz sentido que as decisões da Liga tenham de ser sempre ratificadas pelos Clubes (o que se verifica).

Outra para o facto de enquanto a maior parte está a pensar como vai acabar esta época, já há quem esteja a pensar na próxima, contratando treinadores e jogadores – mas já pensaram quando e se vai começar a próxima época?; já pensaram se no CdP e nos Distritais vão jogar sem adeptos até haver vacina? Estou curioso.