Estamos certos de não cometer qualquer crime ao afirmar que se o disparate politicogovernamental fosse música, iríamos ficar surdos com o continuado som de tantas orquestras sinfónicas e de filarmónicas, que seriam mais do que tortulhos em estação de boas condições de nascença, como o demonstra à saciedade a série de ideias destemperadas a altamente dilatadas pela canícula, distribuídas ao domicílio, num cumprimento que se tornou rotineiro. Trata-se de legislação, é claro, mas sabemos que pior do que não fazer lei nenhuma é legislar a trouxemouxe, cujo resultado palpável é avançar às escuras, pondo a nu o retrato de um poder fraco e trapalhão, tendo em conta que o combate é demasiado sério para ser travado aos solavancos ou às arrecuas, sem respeito por qualquer tipo de equidade e sem que sejam bem explicitados os fundamentos de tais medidas. É claro que as mensagens avulsas e contraditórias passadas para a sociedade apenas servem para desacreditar o processo legislativo e, em consequência, as leis que dele resultam, já que elas só produzirão algum efeito e conquistarão adeptos para a causa se houver bom senso na sua conceção. Trinta e oito anos após o 25 de Abril, que tinha por meta a solidariedade para com os mais pobres, o esforço maior de qualquer governo deveria ser, em primeira mão, dinamizar a economia e promover o emprego, já que só as políticas sociais e solidárias serão capazes de determinar o sucesso de qualquer governo. Em qualquer parte há malandros, mas não se pode rotular desta forma todo o nosso Povo. Por isso é indispensável criar trabalho, pôr o emprego em destaque, na medida em que as pessoas querem ver resolvidos os seus principais problemas através da sua participação, também pelo seu esforço. O futuro reclama um empenhamento coletivo e um aprofundamento dos direitos dos cidadãos no respeito pelos direitos constitucionais, no presente tão feridos. Os governantes têm o dever, se forem competentes, de possuir capacidade de intervenção, de aumentar os investimentos com infraestruturas e políticas sociais de emprego, tendo em conta que as práticas neoliberais não têm qualquer tipo de preocupações com a pessoa humana. A palavra equidade, ou seja, “justiça e imparcialidade nos julgamentos”, tem sido usada e abusada, mas a verdade é que as decisões governamentais não têm sido concordes com a sua expressão. Há reformados e reformados, uns oriundos do setor público e outros do privado, juntos no mesmo saco, quando os percursos foram bem diferentes ao longo das suas carreiras contributivas. Para este setor da sociedade arregimentou o governo toda a tua sanha, como se os reformados e pensionistas, especialmente os mais desfavorecidos, fossem os maiores réus no processo em que nos encontramos. Senhores governantes, os reformados, em teoria, são os mais próximos candidatos à parca, porque mais velhos, mas para agora receberem para tal contribuíram, não estão a roubar nada a ninguém e, por isso, não deverão ser empurrados para o monte de forma a aí morrerem de fome na companhia da sua velha manta, como antigamente se fazia. Os reformados têm direito a outro epílogo, a respeito pelos seus cabelos brancos ou pela calvície, pela contribuição efetiva para o desenvolvimento do país. Por isso é que nem todos tiveram meios materiais para serem doutores, engenheiros, arquitetos, professores doutores, etc., etc., para que no passado recente e no presente o sejam e possam ser alguns dos que no presente nos querem colocar na pira do holocausto. Trinta e oito anos depois do 25 de Abril, são horas de cumprir Portugal.