SOBRE FUTEBOL

Por Juvenal Brandão, Treinador de Futebol UEFA Pro (Grau IV), Licenciado em Gestão de Desporto

Sou acérrimo defensor do VAR (árbitro assistente de vídeo – abreviatura do inglês “video assistant referee”). Aliás, acérrimo defensor da tecnologia no futebol. Tudo o que possa trazer a verdade desportiva e reverter o erro humano deve ser implementado. Inglaterra tem a tecnologia da linha de golo, por cá ainda não.

Ficou definido pela FIFA, mas também pela FPF e pelo seu Conselho de Arbitragem, que o VAR apenas iria intervir em erros claros e óbvios. No entanto isso não tem acontecido.

Lances de golo, vermelhos e possíveis agressões são todos analisados. Não há um único golo que não seja visto antes do árbitro no terreno de jogo o validar. E para ajudar, esta época foi implementado um sistema das linhas para que o fora-de-jogo fosse com mais rigor decidido.

No entanto, o VAR tem interferido ao centímetro, ao ponto de esta época termos tido golos anulados ou validados por 4 (quatro!) centímetros. E, segundo as indicações, o VAR só iria intervir em erros claros e óbvios, o que não está a acontecer.

Temos assistido esta época na 1ª Liga a análises de 4 e 5 minutos para validar os golos. O desespero é enorme e nem sempre as decisões têm sido correctas. E acima de tudo, porque são decisões difíceis.

O que parece claro e óbvio é que uma situação que demore mais de 30 segundos a ser analisada nas imagens televisivas é porque não é clara e óbvia, logo a decisão do árbitro em campo não deve ser alterada.

Esta interferência do VAR em lances muito duvidosos (quase todos eles foras-de-jogo) tem feito com que o sistema em si seja duramente criticado. E com razão, na minha opinião. Até aquela velha indicação que os árbitros tinham de “em caso de dúvida, benefício da dúvida para quem ataca” acabou. Não se tem verificado mais isso.

Além de tudo isto, e segundo os especialistas, a primeira limitação do VAR está no processo de captação das imagens. Embora os nossos olhos percebam o vídeo como uma sequência contínua, ele na verdade é composto por um número finito de frames. Há quem considere 60 frames por segundo. Num lance de fora-de-jogo, o operador do VAR precisa separar dois frames consecutivos, um antes do passe, outro depois do passe. A 60 frames por segundo, a distância temporal entre dois frames consecutivos é de 16,7 milissegundos. Isto significa que a imagem só é captada a cada 16,7 milissegundos, e o que acontece nesse intervalo simplesmente não é captado pelo VAR. Um futebolista considerado rápido consegue alcançar a velocidade de 32 quilómetros por hora. Se o atacante estiver a ir no sentido da baliza e o defesa no sentido oposto, ambos a 25 quilómetros por hora, a velocidade com a qual os atletas se distanciam é de 50 quilómetros por hora. Isto significa que, em 16,7 milissegundos, os atletas se distanciaram 23,2 centímetros logo, ainda que o VAR esteja a captar as imagens do jogo a 60 frames por segundo, é fisicamente impossível detectar foras-de-jogo menores que 23,2 centímetros (e, muito provavelmente, a taxa de frames é menor). Além disso, os atletas podem-se distanciar a uma velocidade ainda superior aos 50 quilómetros por hora. Se a captação for de 24 frames por segundo e os atletas se distanciarem a 60 quilómetros por hora, o limite subirá para 69,4 centímetros (mais de meio metro!).

Sou daqueles que continua a achar o VAR imprescindível. A achar que toda a tecnologia que ajude a evitar o erro humano deve ser adoptada. E que o VAR só deve intervir em situações de erro claro e óbvio no campo, logo qualquer lance que demore a ser visionado por mais de 30 segundos é porque não é claro e óbvio. E, já agora, as entidades que comandam o futebol deveriam mostrar, de forma clara e inequívoca, qual é a precisão do sistema, porque distâncias menores que a precisão do sistema simplesmente não podem determinar uma decisão da arbitragem.