SOBRE FUTEBOL

Opinião de Juvenal Brandão, Treinador de Futebol UEFA Pro (Grau IV), Licenciado em Gestão de Desporto

No último 16 de Fevereiro, Marega, futebolista do FC Porto, abandonou o jogo em Guimarães, para o campeonato devido a insultos racistas. Foi a primeira vez que tal aconteceu em Portugal e está a levantar forte discussão sobre o tema.

O dicionário da língua portuguesa define racismo como “1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria. 2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, nomeadamente etnia, religião, cultura, etc.”.

O racismo existe. Na sociedade e no futebol. E claro que há muito a fazer para o combater. Que os clubes tenham de ser castigados, parece que não há dúvida, mas mais do que os clubes, os indivíduos prevaricadores não podem sair impunes. Deve ser feito tudo e mais alguma coisa, como a denúncia de quem não prevarica e que defende a imagem dos seus clubes. Porque não podem ser todos metidos no mesmo saco.

Mas o racismo não é a única coisa que precisa ser combatida em Portugal, no Desporto e no futebol português. A violência física e verbal também. Há uns tempos a esta parte está instalado um clima de guerra e ódio que na minha opinião vem de inúmeros programas televisivos onde os “entendidos” falam de tudo menos de futebol. Juntando a isto as redes sociais e estamos perante a mistura bomba para continuarem a acontecer episódios que envergonham Portugal e o futebol e, muito provavelmente, uma tragédia qualquer. No futebol, mais do que o racismo, o que se vê constantemente é o insulto puro e duro. Do adepto que vai ao futebol para descarregar o stress do dia-a-dia. Mas isso por si só é entendível? Admissível?

Toni Martínez falhou um penálti que daria o empate ao Famalicão em Paços de Ferreira aos 90+5’ e denunciou que recebeu ameaças devido a apostas desportivas, o que só vem provar o estado em que as coisas estão. Jackson Martínez, avançado do Portimonense falhou um penálti contra o FC Porto (clube que já tinha representado) e foi logo acusado de ter feito de propósito. Outros casos do género também já aconteceram no passado, como o de Fábio Cardoso (quando defrontou o Benfica) ou Tonel (frente ao Sporting). Estamos num mundo onde parece que vale tudo e estas acusações e ameaças são feitas de ânimo leve e sem consequências. Hoje em dia, nas redes sociais diz-se qualquer coisa, coloca-se em causa a dignidade da pessoa, não se olha a meios para atingir fins. Clubite extrema. Quer-se ganhar de qualquer maneira. Não há respeito.

Se andarmos por esses campos de futebol fora, não só ao nível do futebol sénior, mas no futebol jovem, vemos tudo menos valores que o Desporto tanto nos ensina e, que, muito provavelmente só poderá sair deste buraco negro com a intervenção na hora da GNR presente ou, quem sabe, da criação de uma Polícia especializada para estar nos campos de futebol com a obrigação de intervir, corrigindo, ensinando, multando e detendo quem não sabe estar.

Que há um longo caminho a percorrer, lá isso há.