Vindimas em França são oportunidade de trabalho

A recuperação económica começa a surgir nos números oficiais, mas ainda não entrou na casa de mais de 600 mil portugueses desempregados e dos 7842 paredenses inscritos no centro de emprego. Para eles o início da época de vindimas em França é uma ótima oportunidade para ganhar um dinheiro extra.

Mais de 70 partiram há duas semanas para a região de Champagne-Ardenne, norte de França, para a colheita do vinho. Alguns regressam, outros não, na esperança de começar uma nova vida. 

Todos os anos rumam a França e Espanha, por altura das vindimas, centenas de pessoas que procuram um rendimento extra. A época da colheita já começou e da região partiram dezenas de desempregados, rumo a França. Percorrem mais de três mil quilómetros e regressam após 12 dias de trabalho nas quintas. Nos últimos anos a procura tem aumentado, nomeadamente no concelho de Paredes, sobretudo entre os desempregados, que encontram, nesta altura, uma oportunidade de ganhar dinheiro.

 

Desempregados são os que mais procuram este tipo de trabalho

Falar de desemprego é falar de projetos de vida perdidos, de frustrações acumuladas. Falar de desemprego é falar na perda da dignidade e na procura constante de uma realização que tarda.

Conceição Marques, natural de Lordelo, é um dos mais de sete mil desempregados do concelho de Paredes. Com um rendimento de pouco mais de 200 euros, Conceição vive todos os meses um drama para pagar as despesas da família. Como ela também Patrícia, Diana, Cláudia e Silvino partilham esta dura realidade.

Todos reclamam falta de oportunidades, não poupam críticas ao sistema e lamentam que os números não reflitam a realidade do mercado de trabalho em Portugal. Os cinco partiram para França com a bagagem cheia de sonhos e projetos, deixando para trás família e amigos. Partem para Dormans, região de Champagne-Ardenne, norte de França, para trabalhar nas vindimas.

Como eles mais uma centena de paredenses procura ganhar um dinheiro extra e, quem sabe, encontrar trabalho lá fora. De Rebordosa partiram, há duas semanas, dois autocarros com 75 pessoas. Quem organiza estas viagens sustenta que a procura nos últimos anos tem aumentado. “Nos últimos anos há mais pessoas a se inscreverem e este ano foi demais. A procura foi muito superior. Tinha lugar para 75 pessoas mas tinha mais de 150 pessoas inscritas”, afirma Lucinda Gonçalves.

Habituada a trabalhar nas vindimas em França e Espanha há vários anos a rebordosense sabe mais do que ninguém que a crise impulsionou a procura deste tipo de trabalho. Mas se no início eram os estudantes que mais procuravam este rendimento extra, agora são sobretudo os desempregados. “No início tinha de colocar anúncios e andar por aí a recrutar pessoas, mas já deixei de o fazer. Todos os dias tenho gente a bater à minha porta a pedir para ir. Sobretudo desempregados”, lamenta.

 

Vidas escondidas pelas estatísticas

Conceição Marques, 50 anos, trabalhava como empregada doméstica, em Paredes, mas desde agosto do ano passado que está desempregada. Desde os 37 anos que a sua situação financeira se complicou. Com dois filhos solteiros, também desempregados, Conceição é uma mulher sem ânimo. Embarca para França na esperança de encontrar um outro trabalho que lhe permita ajudar a família.

“Espero conseguir mudar a minha vida. Não tenho medo de trabalhar, mas sei que a idade não ajuda e as empresas procuram os mais jovens. Mas tenho esperança. Pelo menos isso, ninguém me tira”.

Não acredita nos números do desemprego e nas notícias que apontam para uma retoma económica. Diz que a taxa baixou à custa do desânimo da maior parte das pessoas em continuar à procura de trabalho. “As pessoas acabam por desistir porque se cansam de trabalhar de graça horas a fio para acabar na mesma situação”, acusa.

Cansada de ir a entrevistas sem ter resultados Conceição espera que esta viagem para França seja definita. “Se conseguir arranjar um trabalho lá vou ficar. É difícil deixar toda a família em Portugal, mas não tenho outra solução”.

As dificuldades financeiras obrigaram Patrícia Matos a seguir viagem rumo a França para trabalhar nas vindimas. Para trás deixa os dois filhos e o companheiro e uma luta de mais de um ano e meio à procura de trabalho. “Não vou por opção, vou por necessidade porque tenho filhos e as condições são cada vez piores. Infelizmente no país que estamos a situação das famílias é cada vez pior. É vergonhoso o estado a que as pessoas chegam”, lamenta.

Foi despedida à cerca de um ano e meio da empresa onde trabalhava, no ramo da hotelaria. A situação melhorou há cerca de um mês porque o companheiro de Patrícia, que também estava desempregado, arranjou trabalho. Ainda assim, o dinheiro não chega ao final do mês. “Custa-me imenso ir, mas não tenho outra solução. Vou ganhar 750 euros em duas semanas. Não é muito, mas é sempre significativo para quem não tem qualquer rendimento”, lamenta. 

Silvino Jorge deixa para trás a família para ir trabalhar nas vindimas. A crise no mobiliário atirou o rebordosense para o desemprego, aos 49 anos. Desde então nunca mais conseguiu encontrar trabalho. Já lá vão três anos. “Já não estou a receber o subsídio de desemprego por isso a situação não é nada boa”, lamenta.

Por experiência própria Silvino percebeu que há muitas realidades escondidas por detrás das estatísticas do desemprego. Também ele não acredita na recuperação. “Acho que está muita coisa escondida. Basta ver pela quantidade de pessoas que se juntaram para ir para as vindimas. Do concelho de Paredes são mais de 200 pessoas que vão para o estrangeiro trabalhar”.

Com 24 anos Diana Freitas nunca trabalhou. Com uma filha de três anos e dependente dos pais reclama mais oportunidades para os jovens. “Infelizmente as coisas tendem a ser cada vez piores. Há cada vez menos oportunidades para os jovens. Não podemos sempre depender dos pais porque as coisas também para eles estão difíceis”. Com um baixa escolaridade e nenhuma formação profissional a jovem de Valongo encontrou nas vindimas uma oportunidade para ganhar algum dinheiro. “A prioridade é arranjar trabalho, não posso estar a pensar em estudar primeiro. Por isso este dinheiro vai ajudar muito”.

Tal como Diana também Cláudia Silva vai à procura de conquistar a sua independência financeira. Com 21 anos começou a trabalhar numa confeção, mas ao fim de um ano foi despedida. “Não tenho emprego fixo desde que fui despedida. Trabalhava em part-time num café, mas nem isso é certo”. Por isso mesmo a jovem não pensou muito antes de tomar a decisão. “Preciso mesmo deste dinheiro por isso nem vou pensar no tempo que vou estar longe da minha filha”, refere.

 

Taxa de desemprego tem vindo a baixar

Os últimos números do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos ao segundo trimestre deste ano apontam para uma redução da taxa de desemprego para o valor mais baixo desde novembro de 2011, mês em que a taxa se fixou nos 14%.

A redução tem sido, aliás, segundo os dados oficiais, constante nos últimos meses, numa altura em que a economia parece estar a dar sinais de recuperação. Um alívio que, ainda assim, não chegou aos mais de 260 mil desempregados na região norte e aos mais de sete mil paredenses que continuam sem trabalho.