Artigo: Dormir bem para crescer melhor
Uma criança que dorme mal é uma criança mais irritável, mais desatenta e com maior dificuldade em aprender. O alerta é feito pela Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) de Paredes Rebordosa, que reforça junto das famílias do concelho a importância de um sono de qualidade no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional dos mais pequenos.
Por que é que o sono é tão importante?
É durante o sono profundo que o organismo liberta a maior parte da hormona do crescimento, essencial ao desenvolvimento físico da criança. Mas os benefícios vão muito além da estatura. Um sono adequado está associado a melhor memória, maior capacidade de concentração, regulação emocional mais equilibrada e um sistema imunitário mais forte. Nos primeiros anos de vida, o cérebro encontra-se em rápido desenvolvimento e uma parte muito significativa desse desenvolvimento acontece precisamente enquanto a criança dorme. Por isso, interrupções frequentes do sono ou um número insuficiente de horas podem ter um impacto que vai muito além do cansaço visível, afetando a capacidade de atenção, o comportamento em contexto escolar e até a forma como a criança gere as emoções e a frustração. Pelo contrário, a privação de sono nas crianças tem sido associada a maior risco de obesidade infantil, dificuldades de aprendizagem, alterações de comportamento, maior irritabilidade, diminuição das defesas imunitárias e até maior probabilidade de acidentes domésticos por falta de atenção.
O que acontece quando a criança dorme mal?
- A curto prazo — Maior irritabilidade, dificuldade de concentração, quebra de rendimento escolar e maior probabilidade de birras;
- A médio prazo — Alterações do apetite e maior tendência para o consumo de açúcar e alimentos calóricos, o que aumenta o risco de excesso de peso;
- A longo prazo — Estudos apontam para associações entre privação crónica de sono na infância e maior risco de perturbações de ansiedade, dificuldades de aprendizagem e problemas metabólicos.
Sinais de que o sono da criança pode não estar a correr bem
- Dificuldade em acordar de manhã — Mesmo depois de aparentemente ter dormido o número de horas recomendado;
- Sonolência diurna — Adormecer no carro, na escola ou durante atividades do dia;
- Alterações de humor marcadas — Irritabilidade, choro fácil ou birras fora do habitual, sobretudo ao finalda tarde;
- Terrores noturnos ou pesadelos recorrentes — Perturbam significativamente o sono da criança e da família.
Quantas horas deve dormir o seu filho?
Os conselhos da UCC Paredes/Rebordosa às famílias
A boa notícia é que a maior parte das dificuldades de sono nas crianças pode ser prevenida ou melhorada com pequenas mudanças de rotina, mantidas de forma consistente ao longo do tempo. Eis os conselhos que a Enfermeira da UCC deixa às famílias do concelho:
- Manter uma rotina regular — Deitar e levantar sensivelmente à mesma hora, todos os dias, incluindo fins-de-semana. O corpo humano tem um relógio biológico interno que agradece a previsibilidade;
- Criar um ritual calmo antes de deitar — Um banho morno, ler uma história, ouvir música tranquila ou uma conversa serena ajudam a sinalizar ao cérebro que está na hora de abrandar;
- Reduzir ecrãs à noite — Televisão, tablets, computadores e telemóveis devem ser desligados pelo menos 60 minutos antes de deitar. A luz azul destes aparelhos inibe a produção de melatonina, a hormona que regula o sono, além do conteúdo estimulante manter o cérebro em alerta;
- Cuidar do ambiente do quarto — Um quarto escuro, silencioso, bem arejado e com uma temperatura amena (idealmente entre 18ºC e 21ºC) facilita muito o adormecer e reduz os despertares noturnos;
- Evitar refeições pesadas, cafeína ou açúcar ao final do dia — Podem atrasar o adormecer e fragmentar o sono;
- Estimular a atividade física durante o dia — Brincar ao ar livre e a exposição à luz natural ajudam a regular o ritmo circadiano, mas o exercício intenso deve ser evitado nas duas horas antes de deitar;
- Ter atenção às sestas — Sestas demasiado longas ou muito tardias podem dificultar o adormecer à noite,
- Evitar usar a cama como local de realização de trabalhos de casa — A cama deve estar associada apenas ao descanso, para que o cérebro a associe rapidamente ao sono;
- Dar o exemplo — Os hábitos de sono dos pais e cuidadores influenciam diretamente os das crianças. Uma casa calma à noite ajuda toda a família a dormir melhor.
Quando procurar ajuda
Nem todas as dificuldades de sono exigem uma consulta médica. Muitas resolvem-se apenas com ajustes na rotina. No entanto, há sinais que merecem uma avaliação mais atenta por parte de um profissional de saúde:
- Dificuldades persistentes em adormecer;
- Despertares noturnos frequentes — Sobretudo se acompanhados de choro intenso ou dificuldade em voltar a adormecer sem ajuda;
- Ressonar habitual ou pausas na respiração — Sinais possíveis de apneia do sono, que deve ser sempre avaliada;
- Sonolência excessiva durante o dia — Apesar de, aparentemente, dormir um número suficiente de horas.
- Terrores noturnos ou sonambulismo frequentes — Que causem sofrimento à criança ou perturbem significativamente a vida familiar.
Autora:
Iara Ferreira, Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica na Unidade de Cuidados na Comunidade Paredes Rebordosa.

