Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência – Voz de uma mulher na Ciência
O Dia Internacional da Mulher na Ciência assinala-se a 11 de fevereiro. Com esse mote, damos voz a uma jovem mulher que encontrou na ciência não só uma profissão, mas uma paixão.
Inês Leal tem 26 anos e vive desde sempre na freguesia de Paredes. O interesse pela ciência surgiu ainda no secundário, quando começou a aprender sobre vulcões. Apesar desse primeiro fascínio pela Geologia, o seu percurso académico seguiu outro caminho: a Biologia. Quando percebeu que era nesta área que queria construir o seu futuro, nem ponderou alternativas e só se candidatou a esse mesmo curso superior, acabando por ingressar na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
Sendo a biologia uma área tão abrangente, a possibilidade de poder escolher disciplinas e contactar com diversos temas foi essencial para começar a construir o seu caminho. Ao longo da sua licenciatura estudou temas desde microbiologia, gestão de aves e mamíferos e até comportamento animal. Foi, no entanto, a microbiologia que mais se destacou e que acabou por se prolongar no seu percurso. O “bichinho” cresceu ainda mais depois de assistir a uma palestra sobre Biotecnologia Ambiental e Microbiologia Ambiental, apresentada por quem viria a ser a sua orientadora de estágio.
Interessada, Inês contactou a palestrante e iniciou o seu estágio no Ciimar – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental – onde trabalhou com bactérias degradadoras de petróleo. No entanto, com o surgimento da pandemia da Covid-19, o projeto acabou por não ser concluído.
Seguiu-se o Mestrado que, naturalmente, teria de estar ligado à microbiologia. Esta nova etapa levou-a até ao Algarve, onde durante a tese se dedicou à microbiologia alimentar e ambiental. A experiência foi tão positiva que teve a oportunidade de permanecer mais dois anos, desta vez com uma bolsa de investigação. O projeto em que esteve envolvida resultou de uma colaboração com uma universidade em Angola, mais precisamente na província do Namibe, que a jovem teve a oportunidade de visitar duas vezes.
“Lá desenvolvemos um projeto incrível, que foi a criação de um laboratório de Microbiologia na universidade. Ensinamos técnicas, analisamos o material que era necessário e as infraestruturas existentes. Na segunda visita, conseguimos montar o laboratório e formar não só os professores, mas também vários alunos, explicando as técnicas e a importância da Microbiologia para a província”, recorda.
Esta experiência marcou-a profundamente, sobretudo por ver o impacto concreto do seu trabalho no terreno e a forma como a ciência pode servir a sociedade. Ainda assim, sentia que o seu caminho ainda não seguia o rumo certo. Decidiu, então, avançar para o Doutoramento, regressando à área da Biorremediação, a mesma área do seu primeiro estágio.
Voltou ao Porto como bolseira de Doutoramento em contexto não académico no Ciimar e numa empresa de gestão de águas residuais. Encontra-se atualmente no segundo ano, a desenvolver trabalho na Biorremediação de efluentes de Estações de Tratamento de Águas Residuais, com o objetivo de eliminar fármacos e microplásticos através de soluções naturais.
Questionada sobre a importância do Dia Internacional da Mulher e Menina na Ciência, Inês sublinha que, apesar de existirem muitas mulheres na área, os cargos mais importantes continuam a ser maioritariamente ocupados por homens. Recorda ainda que, durante muito tempo, o trabalho de muitas mulheres foi desvalorizado, com os créditos das suas descobertas atribuídos a homens, tanto aos seus maridos como a colegas que faziam parte dos seus grupos de investigação.
“É por essas mulheres que se criou este dia e que é tão importante celebrá-lo. Elas não tiveram voz, mas nós, jovens investigadoras, estamos a ter mais voz e temos de continuar a lutar para ter ainda mais e para manter a que já temos”, afirma.
Apesar da importância da ciência e da investigação, Inês aponta a precariedade como um dos grandes problemas do setor. A maioria dos investigadores vive à base de bolsas, com situações financeiras instáveis, onde conseguir um financiamento é extremamente difícil, até para um simples eletrodoméstico. A ausência de contratos de trabalho faz com que as bolsas sejam consideradas um suplemento e não um salário. Embora existam promessas do Governo para a criação de contratos para alunos de doutoramento, com direitos laborais equivalentes a um trabalhador comum, a realidade ainda não mudou. Trata-se de uma luta constante, para que se tornem trabalhadores menos vulneráveis às exigências da sociedade e à precariedade do país.
A nível pessoal, Inês admite nunca se ter sentido discriminada, referindo que sempre lhe proporcionaram várias oportunidades e liberdade para ter experiências, até internacionais. Reconhece, no entanto, que estar rodeada por equipas chefiadas por mulheres e compostas maioritariamente por pessoas do mesmo género pode também influenciar esse percurso e experiência.
