21 Julho, 2026

EPILEPSIA NA ESCOLA : O preconceito ainda magoa mais do que a doença

epilepsia-na-escola

O preconceito ainda magoa mais do que a doença
Por Sílvia Badim — Enfermeira Especialista em Enfermagem Comunitária, Equipa de Saúde Escolar da UCC Paredes Rebordosa, ULSTS

“A segurança nasce da informação partilhada.”

A epilepsia é uma das condições crónicas mais comuns na infância e na adolescência. Não é uma doença mental, não é contagiosa e, na maioria dos casos, está controlada com medicação. A maioria das crianças e jovens com epilepsia pode e deve participar plenamente nas atividades escolares, desde que existam condições de segurança adequadas.

Reconhecer os sinais — o erro de procurar apenas a convulsão. A epilepsia pode manifestar-se de diferentes formas e nem todas as crises envolvem convulsões. O desconhecimento destas diferentes manifestações contribui frequentemente para o atraso no reconhecimento das crises e para o estigma associado à doença. Por isso, é fundamental que professores e assistentes operacionais saibam identificar os vários sinais que uma crise epilética pode apresentar, muito para além da imagem habitualmente associada à epilepsia.

• Crises tónico-clónicas generalizadas: são a forma mais conhecida de crise epilética, caracterizando-se por perda de consciência, queda ao chão, rigidez corporal seguida de movimentos rítmicos dos membros (convulsões).

• Crises de ausência: manifestam-se por uma interrupção súbita e breve da atividade. O aluno fica com o olhar fixo, deixa de responder durante alguns segundos e retoma a atividade como se nada tivesse acontecido. Estas crises passam frequentemente despercebidas ou são erradamente interpretadas como distração, desatenção ou falta de interesse.

• Crises focais: resultam da atividade elétrica anormal numa área específica do cérebro e podem apresentar manifestações muito variadas, como movimentos automáticos repetitivos (automatismos), alteração da consciência, dificuldade em responder, alterações da fala, sensação súbita de medo ou desconforto, movimentos involuntários de uma parte do corpo ou alterações sensoriais, como formigueiros, cheiros ou sabores inexistentes.

O olhar atento de um professor ou assistente operacional e a comunicação à equipa de saúde escolar
podem fazer toda a diferença.

Como agir perante uma crise convulsiva

Perante uma crise, o pânico é o pior inimigo. A regra de ouro é manter a calma, proteger a criança de lesões e evitar intervenções desnecessárias, pois a maioria das crises termina espontaneamente em 1 a 3 minutos.

O QUE FAZER
✓ Proteger a cabeça do aluno com algo macio.
✓ Afastar objetos perigosos ao redor.
✓Quando a crise terminar e se a criança permanecer sonolenta, colocá-la em Posição Lateral de
Segurança.
✓ Permanecer ao lado da criança e falar calmamente enquanto ela recupera.
✓ Registar a hora de início do episódio.

O QUE NUNCA FAZER
✗ Não tentar imobilizar o aluno.
✗ Não forçar a interrupção dos movimentos.
✗ Nunca colocar nada na boca (nem dedos, nem colheres, nem objetos).
✗ Não dar água nem medicação oral enquanto a crise decorrer.

QUANDO LIGAR IMEDIATAMENTE PARA O 112
• Se a crise ultrapassar os 5 minutos.
• Se ocorrerem crises seguidas, sem recuperação de consciência entre elas.
• Se houver dificuldade respiratória.
• Se ocorrer uma lesão grave durante a crise.
• Se a crise ocorrer dentro de água.
• Se for a primeira crise daquela criança.

Plano de Saúde Individual (PSI)

O PSI é desenhado pela enfermagem de saúde escolar em articulação com a família, a escola e os profissionais de saúde envolvidos. Funciona como um guião institucional, detalhando os cuidados a ter durante as crises, a medicação habitual e de urgência, e os contactos necessários em caso de emergência.

• Não pode ficar na gaveta: tem de ser do conhecimento de todos os profissionais envolvidos — do diretor de turma ao funcionário do refeitório, do professor de Educação Física ao motorista do transporte escolar.

• Transparência da família: o receio do estigma pode levar algumas famílias a não partilharem o diagnóstico. No entanto, uma comunicação adequada com a escola permite preparar a resposta em caso de crise e aumenta significativamente a segurança da criança. Partilhar e atualizar a informação permite construir um ambiente seguro.

Sempre que exista medicação de emergência prescrita, a sua administração deve estar prevista no Plano de Saúde Individual e ser realizada de acordo com a prescrição médica, o PSI e os procedimentos definidos pela escola.

Incluir não é superproteger
A superproteção, embora nasça de uma boa intenção, é uma forma subtil de exclusão que limita o desenvolvimento da criança.

• Se a doença está controlada, o aluno deve ir à visita de estudo, deve participar nas aulas de Educação Física, nas visitas de estudo e nas atividades extracurriculares, sempre que a situação clínica o permita e de acordo com o Plano de Saúde Individual.
• Gerar condições de segurança é obrigatório; criar barreiras desnecessárias é discriminatório.

Uma escola preparada não é aquela onde nunca acontecem crises; é aquela que sabe reconhecê-las, agir com segurança e garantir que nenhuma criança é excluída por falta de conhecimento.

E uma escola segura é aquela onde qualquer criança pode aprender, crescer e ser ela própria — epilepsia incluída.