POR VITORINO SOARES, Pároco de Castelões de Cepeda

«O domingo é o dia da ressurreição, é o dia dos cristãos, é o nosso dia», dizia S. Jerónimo, um dos Padres da Igreja do século IV, aquele que traduziu a Bíblia para latim, com o nome de “Vulgata”. A ressurreição de Jesus é o dado primordial sobre o qual se apoia a fé cristã. Trata-se de uma realidade captada plenamente à luz da fé, mas comprovada historicamente por aqueles que tiveram o privilégio de ver o Senhor ressuscitado. É um acontecimento admirável que não apenas se insere, de modo absolutamente singular, na história dos homens, mas que se coloca no centro do mistério do tempo. Por isso, a Igreja, ao comemorar, não só uma vez ao ano, mas em cada domingo, o dia da ressurreição de Cristo, deseja indicar a cada geração aquilo que constitui o eixo fundamental da história, ao qual fazem referência o mistério das origens e o do destino final do mundo.

Diz a Escritura, que no primeiro dia da semana, de manhã ainda escuro, Maria Madalena, foi ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. O primeiro dia da semana assinala um tempo novo, uma realidade nova criada com a ressurreição de Jesus. ”Não procures entre os mortos Aquele que está vivo!” A insitência na pedra, que já tinha sido retirada apesar de ser muito grande, enquadra-se nesta perspectiva da intervenção Deus que supera todas as possibilidades humanas. A acção do homem fica fora do sepulcro. Aqui está o paradoxo, o ponto de ruptura: no centro de um sepulcro, onde o homem nada tem a fazer a não ser ocupar-se de um morto, situa-se a acção de Deus que expressa a vida e inicia uma nova história. Mesmo com dados cronológicos e topográficos, não é possível sabermos como, quando e onde sucedeu a ressurreição. É do domínio de Deus, por isso a ressurreição não se confunde com uma crónica, mas apresenta-se como uma revelação: ”Não está aqui, ressuscitou!” Termina o tempo do “ver” para dar lugar ao tempo do “escutar”, é o tempo da fé, que domingo a domingo celebramos, na eucaristia.

O domingo, segundo a experiência cristã, é sobretudo uma festa pascal, totalmente iluminada pela glória de Cristo ressuscitado. De facto, o mistério pascal de Cristo constitui a revelação plena do mistério das origens, o cume da história da salvação e a antecipação do cumprimento no final do mundo. Aquilo que Deus realizou na criação e o que fez pelo seu povo na saída do Egipto, encontrou na morte e ressurreição de Cristo o seu cumprimento.

Finalmente, em cada domingo alimentamos a esperança na vida sem fim, que nos estimula no nosso caminho até à meta definitiva, pois o domingo também significa esse dia realmente único que virá após o tempo actual, o dia sem fim, o século emorredouro que não poderá envelhecer. Assim o primeiro dia, em cada semana, transforma-se no oitavo dia, imagem da eternidade…

P.e Vitorino Soares