Um ano de Guerra visto pelos Ucranianos a viver em Paredes

Prokhorenko e Sokolyuk duas famílias ucranianas que apesar de viverem em Paredes têm a família no palco da Guerra. Margarida e Olga, uma paredense, outra ucraniana, partilharam casa num gesto de bondade. 

A 24 de fevereiro de 2022, passava já das três da manhã, em Portugal continental quando o pesadelo da guerra voltou a avassalar a Europa e a trouxe de novo uma realidade que tinha ficado no passado. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, lançou uma invasão militar em larga escala no leste da Ucrânia.

Os olhos do mundo passaram a estar na Praça da Independência, em Kiev, na Ucrânia. Agora, todos nós temos bem presentes na nossa mente cidades como Bucha, Mariupol, Zaporizhzhya ou Dnipro. Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia passou a vestir verde tropa, recusou a fuga do país, falou ao seu povo e ao mundo todos os dias, e por nunca ter desistido de defender a integridade territorial da Ucrânia, venceu no ano passado o prémio personalidade no ano da revista Time.

O Progresso de Paredes reuniu duas famílias ucranianas que vivem em Paredes para falarem de como estão a viver esta guerra de perto e à distância.

A família Prokhorenko e a família Sokolyuk residem atualmente em Paredes mas tem a família na Ucrânia. Histórias arrepiantes de quem vive a Guerra de perto.

 

  • Família Prokhorenko

A família Prokhorenko é constituída pela mãe Lesia, pelo pai Oleksandr e pelos filhos Sofia e Vladyslav. Vieram para Portugal devido à enorme crise que avassalou o país no início dos anos 2000. Viviam no “prédio dos ucranianos” como era denominado pelos populares.

Lesia Prokhorenko esteve na Ucrânia há dois meses atrás, onde encontrou um cenário de destruição. Questionou a sua família na Ucrânia se queriam sair de lá e a resposta é taxativa “não”. Deslocou-se ao país em tempo de guerra, porque lá estão todos os seus entes queridos “fui de avião até à Polónia e depois fiz uma viagem de dezasseis horas até chegar à minha família na Ucrânia”.

“Vi prédios danificados, comboios com máquinas de guerra, ouvem-se sirenes, é uma nova realidade que se tornou normal” abordou Lesia sobre a realidade ucraniana. Uma coisa tão simples como carregar um telemóvel, torna-se um grande desafio em tempo de Guerra.

Carregar um telemóvel na Ucrânia envolve um processo muito complexo

A avó de Sofia, Natasha Ognivets é enfermeira numa pequena cidade perto de Kiev denominada, Zgurovka. Vai trabalhar de bicicleta, algo que é bastante normal tendo em conta que o meio de transporte é muito popular no país. Faz turnos de 24 horas seguidas e depois descansa 48 horas, mantendo sempre este ritmo. Diz “que não pode abandonar o seu país, porque precisam dela”.

Natacha e a neta Sofia na Ucrânia

A Ajax Systems, uma das maiores empresas de tecnologia da Ucrânia, criou uma aplicação que avisa os usuários sobre ataques aéreos realizados, muitas vezes antes das tradicionais sirenes tocarem. “Uma sirene toca e agora é absolutamente normal”.

“O presidente que era um comediante tornou-se naquilo que é” deixa a família muito orgulhosa e que representa “o quanto gosta do país”.

Os grupos de Telegram mostram a realidade mais próxima da realidade, “que não aparece nos telejornais”. A rede social transformou-se numa importante forma de comunicação e transmissão de informação. Lá existem relatos de “saques de material eletrônico, relatos de violações e testemunhos de soldados na primeira pessoa”.

A família Prokhorenko tinha um amigo que vivia em Kharkiv que era espião do lado ucraniano. A sua função era colocar chips debaixo dos carros de modo a controlar as suas deslocações que eram monitorizadas por superiores. Foi descoberto e torturado pelo lado russo “esteve três dias a ser espancado e torturado, a família perdeu a esperança de o voltar a ver”. Mais tarde, foi abandonado num campo.

Começaram a fazer bonecos e roupas com frases a apoiar a Ucrânia e com a bandeira de forma “a fortalecer o espírito de união nacional”.

Não tencionam regressar à Ucrânia “devido à qualidade de vida”, Sofia lembra que compra uma coca cola com 20 cêntimos e que a aproximação à Nato e à União Europeia podem “ajudar a Ucrânia a ter mais proteção e melhoria de vida”.

 

  • Família Sokolyuk 

A família Sokolyuk é constituída pela mãe Anna, pelo pai Oleksandr e pelos filhos Dinis, Sofia e Carina.

Anna acordou os filhos de manhã, antes de estes irem para a escola, quando lhes contou o que se estava a passar no seu país. Recebeu uma chamada da família que se encontra na Ucrânia. A mãe de Anna vive em Kiev, a restante família vive perto da fronteira com a Polónia.

Sofia conta que o acesso aos produtos “não é o grande problema, mas sim a eletricidade pois só há luz algumas horas por dia”. Nas zonas rurais, os produtos são quase todos produzidos na cidade mais próxima, o que acaba por ser fácil adquirir, algo totalmente oposto nas grandes cidades.

O acesso à informação não é tal e qual a realidade nos noticiários porque na opinião de Sofia “estão a tentar manter a calma e não alarmar as pessoas”.

Oleksandr Sokolyuk foi à fronteira com a Roménia buscar alguns familiares para se juntarem a eles em Paredes por algum tempo. Mais tarde, regressaram à Ucrânia,  “voltaram porque queriam retomar a vida deles na Ucrânia, sentiam necessidade de estar lá junto dos maridos, que ficaram a combater”.

Enquanto estiveram cá, os familiares da família Sokolyuk, contaram muitas histórias da crueldade russa, entre violações a menores e a castração de seres humanos, os relatos impressionam quem viu “atos selvagens de puro ódio”.

Sobre Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia falaram do tempo em que era comediante e que “a audiência do seu programa, salvava as audiências do canal onde era transmitido”. A sua vitória nas eleições presidenciais não foi tão bem vista no momento, devido à série cómica “Servo do Povo”, onde Volodymyr participou como ator. O seu personagem era o Presidente da Ucrânia, que era muito corrupto. “O certo é que ele demonstrou amar a Ucrânia, não fugiu, a sua família não fugiu e ele mantém o contacto diário com cada um de nós”.

A família Sokolyuk acredita na vitória dos ucranianos e dizem que um ano “passou muito rápido com tanta informação que muda tão rapidamente”. Acrescentam que “não deverá haver mais um ano de guerra”.

 

Refugiados encontram “casa” em Paredes

A maior vaga de refugiados vivida na Europa, após a segunda guerra mundial, fez com que várias cidades da Europa abrissem as suas portas para receber o povo ucraniano. O Município de Paredes, em conjunto com alguns parceiros locais, recebeu a 16 de março de 2022, 21 refugiados ucranianos. 

A constituição das famílias que chegaram a Paredes era na sua grande maioria mulheres, crianças e jovens, devido à lei marcial imposta no território. A autarquia destinou uma verba para suportar os custos do combustível e portagens das três viaturas.

  • Margarida Ferreira e Olga Luchaninova

Margarida Ferreira, reside na Madalena e acolheu uma jovem ucraniana em sua casa durante 4 meses.

Olga Luchaninova, de 29 anos, foi uma das 21 pessoas que vieram da Ucrânia. Deixou o seu trabalho numa empresa de telecomunicações quando teve de fugir à procura de um lugar seguro. Paredes foi esse lugar.

“Inscrevi-me na Câmara para acolher uma família ucraniana porque queria muito ajudar” falou Margarida sobre a sua vontade de colaborar nesta iniciativa. “No início também vinham os pais de Olga, mas acabaram por permanecer na Ucrânia”, confessa também que foi uma “experiência única na minha vida”.

Margarida diz que “falávamos através de uma aplicação porque eu não sabia falar ucraniano e a menina não sabia falar português”. Olga gostava muito “da generosidade dos paredenses” e que se “sentiu em casa”.

“Partilhamos muitas refeições juntas, mas Olga não falava muito da realidade ucraniana” confessou Maria, que a barreira linguística e a diferença cultural foram grandes desafios para si nesta aventura.

A paredense mostra-se orgulhosa e satisfeita de poder ter contribuído positivamente para a melhoria da vida de Olga, numa fase tão desafiante da sua vida.